Tenho
presenciado cenas e vivido situações, principalmente com crianças
na faixa etária entre 5 e 9 anos, que acreditam que basta elas quererem
para que devam ser atendidas. Tem-se a impressão de que a criança
aprendeu que a simples simulação desta frase, "mas eu quero...",
estabelece o motivo e a obrigatoriedade de serem atendidas, incondicionalmente,
em seu desejo.
Ouço depoimentos de professores relatando histórias de alunos
que se negam a fazer lições de casa ou a estudar determinado tema,
ou a participar de um trabalho coletivo e, como justificativa, estas crianças
dizem que não querem, que é chato. Quando os professores insistem,
dando um limite claro, que é importante e necessário fazer determinada
atividade escolar, elas replicam, revestidas de autoridade, que não querem
fazer e que não vão fazer.
E agora? Como proceder? Estas crianças acreditam que só devem
fazer o que lhes dá prazer, o que elas aceitem. Não aceitam submeter-se
a um processo mais trabalhoso e mais elaborado. Não aceitam os procedimentos
necessários à aprendizagem. Não querem, como se diz em
linguagem popular, suar a camisa. Se estes professores recorrem aos pais, eles
replicam, "Você viu só? Ela só faz o que ela quer..."
ou ainda , "Ele é fogo...Não obedece mesmo!".
Um pai contou-me que seu filho negava-se a escovar os dentes e que não
havia jeito de que o fizesse. Perguntou se ele deveria deixar e esperar que
ele amadurecesse e entendesse a necessidade desta higiene ou se ele deveria
insistir. E os dentes esperam uma pessoa amadurecer para serem escovados? Parece-me
que não!
Ainda conheço um jovem que se nega a ir à primeira aula, pois
acha muito cedo. Conheço outro menino que não aceita fazer exercícios;
ele acha que basta ouvir o professor explicar. Sei de crianças que se
negam a colocar o uniforme da escola por achá-lo feio. Sei de uma menina
que não aceita a norma de não comer durante as aulas. Sei de pais
que não conseguem que seu filho tome o remédio por ser ruim. Algumas
crianças e jovens não vão à recuperação,
outros não querem fazer terapia. E assim vai.
O insólito dos relatos não são os fatos em si; pois se
pensarmos bem, escovar os dentes é um expediente trabalhoso, assim como
fazer exercícios de matemática. Levantar cedo é chato mesmo,
mas faz parte do viver em nossa sociedade. Talvez o uniforme que o aluno se
refere não seja o mais bonito, mas é o uniforme da escola que
ele escolheu e freqüenta. Os horários e os procedimentos escolares
são contratados na matrícula. Logo, por que estes pais não
conseguem que seus filhos procedam de acordo com o contrato, necessidades, costumes
ou regras?
Muitos pais acreditam que, por não estarem dando a atenção
que gostariam de dar a seus filhos, não têm o direito de lhes exigir
responsabilidade. " Ela ainda é uma criança...", pensam.
Outra situação relacionada ao fato da culpa por não estar
mais perto de seus filhos é o hábito de dar coisas para compensar
a ausência, como se este procedimento os redimisse e os tornasse bons
pais e merecedores do amor e admiração de seus filhos. Acabam
construindo um circuito de prazer em que a frustração deve ser
evitada a todo o custo. Quem não se propõe a trabalhar suas dificuldades,
a viver situações de estresse e de frustração e
a entender a dinâmica social, não poderá inserir-se adequadamente
neste contexto. Vale dizer que, ao poupar uma criança do trabalho de
crescer, a condenamos a ser eternamente criança, imatura e despreparada
para o convívio e para o exercício da cidadania.
Por outro lado, as crianças não querem apenas as coisas que pedem
ou que se negam a fazer. Na grande maioria das vezes, elas não sabem
exatamente o que estão querendo e quais seriam as repercussões
de seus atos. Elas buscam algo muito mais importante e necessário para
elas, que é a emoção e atenção de seus pais.
Este movimento acaba criando um circuito vicioso em que o quanto mais a criança
quer, mais ela ganha e mais ela quer. O relacionamento acaba se transformando
no estresse e na ausência de regras de boa convivência. Os pais
ficam exaustos e os filhos insaciáveis.
Os porquês e as regras são fundamentais para que a criança
entre no universo da razão. É esperado que uma criança
só queira viver coisas que lhe dêem prazer; no entanto, é
fundamental que seus pais e professores lhe mostrem que o esforço faz
parte das conquistas. Ninguém morre por não ser atendido em um
desejo, mas pode perder muito por não conseguir compreender que seus
pais têm dificuldades, trabalham e se esforçam. A relação
de autoridade, que se inicia com a relação com os pais, possibilita
à criança uma convivência politizada e instrumentalizada
para esses novos tempos.
Inicialmente, uma criança obedece por respeitar a pessoa que impõe
a regra. Depois, com a repetição e o entendimento de sua lógica,
a criança compreende e aceita a regra, e esta é reelaborada e
passa a ter um sentido social, além de uma lógica pessoal. Para
que isso ocorra, são necessários muitos "nãos"
e seus devidos "porquês", além de uma boa dose de paciência,
de escuta e de atenção.
Mais tarde, quando a criança for maior, ela respeitará quem lhe
ensinou a viver adequadamente dentro das normas sociais a que todos somos expostos.
Crescer é transpor limites. Quando os pais não dão limites
para seus filhos, acabam limitando-os em sua condição infantil
e impossibilitam o transcender da maturidade.
Muitos pais confundem atender incondicionalmente uma criança com educá-la
amorosamente. É muito importante a criança sentir-se compreendida
em seus desejos e desprazeres, saber que está sendo ouvida e que tem
com quem contar. Acolher o sentimento é um procedimento esperado, adequado
e muito importante na formação de uma pessoa. Dar limites para
a ação é um procedimento educativo fundamental para a adequação
emocional e social.
Estava em uma festinha, quando uma criança procurou chorando sua mãe
e explicou que um amiguinho batera nele. A mãe teve uma reação
fundamental para a educação e equilíbrio emocional de seu
filhio. Abraçou-o e ouviu o relato choroso da criança. Após
o desabafo, a mãe comentou: "Puxa, que chato!...Isto dói
mesmo...você deve estar sentindo muita raiva dele..." A criança,
sentindo-se acolhida, prosseguiu: "Eu quero que você bata nele, para
ele não bater mais em mim." A mãe explicou-lhe que um erro
não justificava outro. Explicou a seu filho que um menino que não
sabe respeitar seus amigos fica sem companhia, e que o ganho dele era ser considerado
legal; que quem sabe respeitar, sempre tem amigos. O menino contentou-se, sentiu-se
valorizado e importante e voltou a brincar. A ação deve ser educada
e o desejo deve ser compreendido, é o que nos ensina Yves de La Taille.
Nós, pais e educadores, devemos estar sempre atentos ao que permitimos
"apenas hoje" ou ainda, "só nesta situação",
pois a cada ação, nossas crianças constroem seus valores
, seus códigos de conduta e seus princípios.
Pais e professores de uma criança devem fazer-se presentes em suas vidas,
promovendo vivências fundamentadas nas virtudes. Só desta forma
nossas crianças poderão superar-se e superar-nos na milenar arte
de viver e conviver!
(Isabel
Cristina Hierro Parolin - psicopedagoga)