Ler e escrever não são sinais de que as crianças vão bem na pré-escola. Os pais adoram ostentar as primeiras letrinhas, comparam com os garranchos do coleguinha, do priminho, do filho do vizinho, principalmente quando o fim do ano vai despontando e pinta aquele alvoroço para saber se os pequenos, enfim, vão chegar á linha de chegada junto com os demais. Enxergam na leitura e na escrita a única prova concreta – e reconhecida socialmente – de que os seus aprendem tanto quanto os outros. Tem alguma lógica nisso. Mas esta alta pressão acaba desencadeando uma corrida de atropelos e sem sentido. Além de encobrir os sinais reais de uma boa estréia escolar, a ansiedade que toma conta de pais e professores põe a perder experiências fundamentais para um aprendizado ativo, criativo e prazeroso ao longo da vida, na sala de aula e fora dela.
Até os 6 anos de idade, pelo menos, o mais importante não é o que se aprende, mas como se aprende. É o tempo de permitir que cada criança tenha seu jeito próprio de entrar em contato com o conhecimento. Aí cada um pode encontrar e desenvolver seu estilo particular de aprender, pode afiar sua capacidade associativa e relacional, pode deixar surgir gradualmente sua criatividade. Quanto mais claro este estilo, mais os pequenos têm energia e autonomia para se nortear e produzir nos estudos, ainda que precisem se adequar a métodos e programas aqui e ali. Antes dos 7 anos, o mais importante não é desenvolver habilidades intelectuais, mas as amizades, as parcerias, a cooperação, a estrutura afetiva para viver conflitos. Sobre esta base emocional sólida é que se constrói um pensamento amplo e dinâmico.
Levar isso em conta ajuda muito quando parece que o filho dos outros esta mais “adiantado” ou que seus pequenos precisam acompanhar o passo da turma. Ajuda também a não estimular – nem aceitar – aquela correria pedagógica que contagia pais e professores nos últimos meses letivos. Mas ajuda, sobretudo, a evitar que a criançada seja exposta a toda essa ansiedade e tenha que se desdobrar para atender as expectativas do adultos. Quando os radarezinhos captam a vontade dos pais, acionam todos os recursos disponíveis para atender àqueles que amam tanto e de quem dependem profundamente. Os aluninhos vão se aplicar muito para não deixar de ser amados – por que imaginam que isso realmente pode acontecer se não corresponderem. O problema é que vão se desdobrar para atingir muitos resultados que custaram caro.
Vão conseguir impressionar, claro. Com performance exemplar em matemática, caligrafia bonitinha, desenvoltura na expressão oral, craques nas atividades esportivas, os pequenos vão abafar nas reuniões familiares e inflar o orgulho dos pais vaidosos. “A professora até sugeriu passar já para a primeira série”, anunciaram os mais loquazes. Para aprender tudo isso, porém, os precocezinhos terão de deixar de lado muita coisa que deveriam experimentar antes, ma idade apropriada. Por hora, tudo bem. Mas as escolas costumam sentir o golpe quando eles chegam ali pela terceira série. Dificuldade para compreender e acompanhar trabalhos com conteúdos mais complexos, assimilação mecânica e repetitiva – não associativa – são os sinais comuns entre os que passaram a pré-escola treinando e acumulando dados.
O alarme soa quando o aprendizado mecânico e sem criatividade provoca desânimo e desinteresse, com uma crescente angústia por conta das cobranças e da queda de rendimento diante de temas que exigem alguma capacidade de análise e ponderação. Sem contar os tiques e vícios de linguagem que se cristalizam por que não puderam ser naturalmente processados. Manias e tropeços na fala, por exemplo, são marcas próprias da criançada até os 6 anos, por que têm a ver com os desafios que enfrentam para o desenvolvimento emocional, mas acabam perpetuadas se os pequenos ficam sem espaço e tempo – ocupados “pedagogicamente” – para viver estes desafios.
Entre o orgulho e a preocupação, melhor ficar com a certeza de que os filhos estão crescendo de modo integral. Métodos de ensino podem alfabetizar crianças com 5 anos ou menos até. Parabéns. Mas os pequenos valem mais do que os métodos, do que a vaidade e o vício competitivos dos adultos. Não é demais pisar no feio e , se necessário, retardar a aprendizagem intelectual para que a filharada desenvolva a capacidade de brincar, imaginar e conviver. Afinal, não se pode produzir conhecimento em beneficio do Homem sem compreender, com humildade, a grandeza assombrosa do universo, os limites da vida, a necessidade de trocas construtivas e da cooperação solidárias entre seres que são tão parecidas e tão – felizmente – diferentes.
David Pontes
em parceria com os psicólogos Ivan Capelatto e Ângela Minatti.