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Mais que um ursinho - Objeto transicional
   
 

O objeto transicional propicia vivência da primeira relação simbólica: o estado de fusão com a mãe, a criança vive com o objeto a primeira posse do não-eu

Para falar das relações objetais  a diferenciação entre o eu e o outro, o mundo interno e externo, Winnicott se refere à gênese dos espaços potenciais, conceito básico de sua teoria. O autor introduz a idéia de fenômeno transicional que pode ser ocupado por gestos, como sugar os punhos e dedos ou a ponta do cobertor, e pela escolha dos objetos, denominados na obra winnicottiana objetos transicionais, como bichinhos de pelúcia, bonecas, cobertores ou até os próprios dedos. O investimento afetivo no objeto permite a passagem psíquica entre o mundo imaginário e a realidade. O fenômeno transicional representa um modelo evolutivo estruturante, que propicia a vivência da primeira relação simbólica: a criança, que experimentava nos primeiros meses um estado de fusão com a mãe, vive com o objeto transicional “a primeira posse do não  eu”.
 Ao falar de “eu e “não  eu” o psicanalista inglês se refere à área intermediária entre a subjetividade e a percepção objetiva. Para ele, o objeto transicional se configura como um símbolo da união do bebê e da mãe (vista de forma total ou parcial) e, na mente da criança, se localiza no espaço e no tempo, na fase em que, na ilusão infantil, os dois estavam fundidos numa relação simbólica.
 Nos casos em que parece impossível separar-se do ursinho querido, ou do paninho de dormir, subjaz o temor muito intenso da separação da figura materna. O apego ao objeto pode revelar a negação dessa ameaça, muitas vezes inconsciente. O “relacionamento” entre a criança e o objeto transicional tem características peculiares: o pequeno proprietário assume seus direitos sobre o objeto, e este, por sua vez, deve sobreviver ao amor e ao ódio infantil (em diversas ocasiões, o eleito é acariciado e, em outra, mutilado); é importante que tenha textura e temperatura agradáveis ao bebê. Muitas crianças fazem questão de mantê-lo junto de si, principalmente nos momentos de tristeza ou insegurança, e recorrem a eles na hora de dormir, incluindo-os num ritual para aplacar a ansiedade de enfrentar a experiência solitária de adormecer. Durante o sono, quando há suspensão da consciência e os sentidos estão como desativados, a criança não tem certeza de que a mãe continuará próxima quando fechar os olhos, ou que a reencontrará no dia seguinte. O brinquedo macio, entretanto, está ao alcance das mãos: pode ser abraçado e acariciado.
 Winnicott lembra que, mesmo passados os primeiros anos, meninos e meninas podem voltar a ter a necessidade de buscar objetos transicionais em situações nas quais se sentirem ameaçados. O esperado, porém, é que o objeto transicional seja gradualmente descatexizado, isto é, deixe de receber o investimento emocional que a criança lhe destina. Como o espaço transicional se amplia à medida que a criança cresce, a tendência é que se desenvolva em relação a outros relacionamentos, à arte e às experiências culturais.

Fonte: Revista Mente&Cérebro

 

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