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A Saga
   
 

 

Ela acordou preocupada, como se uma sentença fosse lhe cair sobre os ombros e encerrar aqueles momentos tão doces, tão gostosos que ela vivera até então.   Não conseguia parar de pensar sobre isso. Como seriam os novos dias que viriam? Ela suportaria a distância? Isso a estava deixando triste e confusa... Tinha vontade de largar tudo, de viver somente para ele, para mais nada ou ninguém.

Sabia que seria muito difícil e queria voltar no tempo, atrasar as horas, os dias, para não ter que enfrentar tudo aquilo: entrar naquele lugar, deixá-lo e ir embora. Passou o dia assim. Abraçou o pequeno mais do que de costume, viveu cada momento, cada instante como se fosse o último. Certo exagero de sua parte. Sabia que tinha tendências ao drama e isso lhe gerou um sorriso no canto da boca que afastou por segundos a angústia que sentia.

Depois da tristeza, veio um sentimento de raiva. Era injusto. Nenhuma mulher deveria abandonar seu filho a estranhos para ter que trabalhar. Mas sabia também que precisava do trabalho, tinha uma carreira. Sorriu novamente com um pensamento: toda mulher que se torna mãe deve imediatamente tornar-se “mãe profissional”, com direito à custos garantidos e tempo indeterminado para viver essa maravilhosa fase. Até imaginou o presidente sancionando tal lei e uma legião de mulheres felizes marchando em festa pelas ruas...

Terminou o dia vivendo oscilações entre alegria de ter aquele pequenino banguela lhe sorrindo com sentimentos de antecipação da saudade. Momentos esses em que o agarrava e beijava intensamente. O garotinho olhava tentando entender os repentes de sua mãe...

Foram dormir.

Ela rolou na cama, acordou diversas vezes, checou mais um outro tanto de vezes a lista de tudo que enviaria ao berçário. Revisou sua “cartinha” (3 páginas) de recomendações e orientações.Praticamente um Manual de Instruções do Pedrinho. Diriam alguns que ela exagerava um pouco. Ela negava fortemente. Era uma mulher prevenida, nada além disso. Sorriu por dentro, sabendo que podia exagerar às vezes, mas bem pouquinho...

Arrumou o pequenino, caminhou até o carro com ele nos braços, sentia os pés pesados e duros, como se estivesse numa maratona após ter percorrido milhares de quilômetros.

Checou novamente a bolsa com todos os itens, o leite materno acondicionando adequadamente na térmica, as orientações.

Ok, vamos. Decidiu-se, até porque não havia como fazer diferente, embora os repentes de uma fuga lhe viessem à cabeça. Dona de uma imaginação fértil, já lhe vieram à cabeça frases do noticiário “mãe revoltada foge com filho para não levá-lo à creche”. Riu de si mesma.

No trânsito, ainda pensou umas duas vezes em ligar para o seu escritório e informar que desistira de tudo e ficaria indefinidamente em casa com seu pequeno. Afastou os pensamentos e concentrou-se no caminho, ora achando-se tola,ora a ponto de chorar. Desceram do carro e caminharam até a porta do berçário. Uma educadora sorridente lhe deu bom-dia e isso a fez sentir-se acolhida. Continuou caminhando e observou crianças um pouco maiores brincando. Todas estavam felizes, sorrindo e muito à vontade. Chegou à sala do seu pequenino: muitas cores, brinquedos e outros amiguinhos o esperavam. A educadora a recebeu carinhosamente perguntando como ela estava. Nesse momento ela desabou e disse que estava sendo muito difícil lidar com a separação, mesmo que por poucas horas, e que ela devia imaginar que ela era uma louca de sofrer tanto. A educadora lhe acalmou, a convidou para um chá e conversaram tranquilamente sobre as dificuldades desse momento.

Respirou profundamente e avaliou que esse era um momento muito difícil, mas necessário. Claro que, se ela pudesse, faria diferente, mas nem tudo é ideal e as decisões precisam ser tomadas com cuidado.

Seu coração de mãe estava apertadinho de saudades, mas, com mães consciente e questionadora, sabia que lá ele estaria seguro e bem-cuidado e isso bastava.

Agora começava a contagem regressiva para buscá-lo.

Um sorriso veio repentinamente quando pensou que ser mãe é realmente padecer no paraíso. E ela não trocaria isso por nada...

Pérola Boudakian, Psícologa, mãe e educadora.

 

 

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