Dizem que uma da maneiras de chamar a atenção dos outros é apresentando pontos de vista polêmicos, e é isso que estou fazendo aqui, ao propor a discussão de uma idéia que pode parecer chocante para muitos(as) de nós:
1 - Não há nada de muito grave acontecendo se as crianças chamam suas professoras de “tias”.
Essa idéia justifica-se pela percepção de um problema muito maior:
2 - Infinitamente mais grave é o fato de crianças e adolescentes não desenvolverem nenhuma espécie de familiaridade com seus professores e professoras.
A gravidade do problema que pretendo discutir é que me leva a pedir que, antes de criticar o artigo e o autor, o argumento seja acompanhado até o fim, em sua lógica. Depois disso, se for o caso ainda, pode xingar...
Como assim, não há nada de mais em chamar professoras de tias?! Afinal de contas, muitos(as) de nós nos engajamos durante anos em um verdadeiro combate contra o antigo hábito de dizer “tia”. E esse movimento tinha, e continua tendo, sua razão de ser: é uma luta contra uma visão excessivamente amadora da profissão de educadora.
Paulo Freire tem um livro com o título Professora Sim, Tia Não, em que expõe de forma clara as principais razões para as professoras deixarem de ser “tias”: essa visão de uma classe profissional como sendo constituída de parentes das crianças pode perpetuar a visão de que não é preciso uma boa qualificação para fazer o trabalho de ensinar, além de favorecer uma visão política passiva e alienada, já que identificar professoras como tias é quase como proclamar que “professoras”, como boas “tias”, não devem brigar, não devem rebelar-se, não devem fazer greve.
Essa idéia foi encampada por um grande número de escolas e, em muitas delas, criou-se o hábito de chamar as professoras pelo nome. Aliás, uma mudança saudável que, em boas escolas, pode favorecer a criação de relacionamentos pessoais de qualidade entre estudantes e professores(as), talvez até melhor do que o costume tradicional de sempre preceder os nomes por um “tia” ou “tio”.
Mas também não posso deixar de admitir que conheço pessoalmente muitas ótimas escolas em que ainda existe o hábito de dizer “tia”, e escolas que achei péssimas em que as professoras eram chamadas apenas por seus nomes.
Sinceramente não acho que essa seja uma diferença fundamental na determinação nem da qualidade do ensino, nem do engajamento administrativo em processos de qualificação. Se, em vez de Lúcia ou Maria, as crianças chamam suas professoras de tia Lúcia ou tia Maria, esse detalhe não me parece de forma alguma decisivo para definir as diferenças que podem existir entre duas escolas. Acho que qualquer um de nós pode concordar com essa afirmação: podemos ter boas escolas em que as crianças chamam as professoras de tias e péssimas escolas em que há o hábito de chamá-las por seus nomes.
Isso não significa negar o valor de todo o movimento em defesa da dignidade e da qualificação de nossas professoras, do qual a luta pelo fim do “tia” faz parte. Mas talvez, ao chegar ao final desse artigo, você veja algum interesse na preservação das “tias”, e concorde com um grito de guerra que seria mais do gênero: Vamos pagar dignamente e qualificar as “tias”!
De qualquer forma o aspecto que quero enfatizar é outro: graves mesmo são os casos em que, com ou sem o “tia”, as crianças mal sabem o nome dessas pessoas que se tornam tão importantes em suas vidas.
E, pensando bem, não seria exatamente esse um dos grandes dramas da educação, especialmente da 5.ª série em diante?
O grande risco para a educação não é o de as escolas se tornarem, como as famílias, povoadas de parentes como as “tias”, mas que aconteça o oposto: que elas sejam lugares onde as crianças mal conheçam os adultos, não tenham familiaridade com eles e não se sintam “em casa”.
Essa é a opinião do educador francês Raymond Fonvieille (1923-2000), discípulo dissidente de Freinet, para quem a principal causa da violência e do fracasso escolar é a falta de relacionamento informal entre professores e estudantes nas grandes escolas, onde há professores de mais e relacionamentos pessoais de menos:
É nessa dispersão que engendra a irresponsabilidade, o anonimato e a indiferença, que reside o fracasso do colégio atual. Um garoto de dez ou onze anos, bem como os alunos em situação de fracasso escolar que eu atendia, antes de ter necessidade de conhecer a anatomia da rã, tem necessidade de segurança.
Aí está uma idéia simples e sensata: crianças e adolescentes que se sentem reconhecidos dentro da escola vão se concentrar, pensar e aprender melhor. A insegurança e a ansiedade são as grandes inimigas da inteligência, da curiosidade, da atividade organizada e da aprendizagem. Qualquer professora de Educação Infantil sabe disso, e é por isso que existe nesse nível de ensino uma grande preocupação com a adaptação de cada criança, um processo complexo para fazer com que cada uma se sinta “em casa”, em um tipo novo e diferente de lar.
Deborah Meiers, educadora e diretora de uma rede de pequenas escolas que vem alcançando resultados educativos excelentes em um bairro carente de Nova Iorque, acredita que esse caráter “familiar” da Educação Infantil não deve jamais ser esquecido e que, até mesmo ao concebermos o trabalho com adolescentes, é necessário manter vivas as idéias e o espírito da boa educação infantil.
Mas o que é que caracteriza o espírito da boa Educação Infantil? Para ela, os princípios mais importantes são: a proximidade entre adultos e crianças, a abertura de espaço para o desenvolvimento de laços entre as crianças e o uso intenso da imaginação criativa e do jogo. Meiers diz que os mesmos princípios deveriam ser aplicados ao pensarmos na educação de adolescentes, e é isso que ela fez em suas escolas no Harlem, em Nova Iorque.
Para os dois educadores citados acima, fenômenos como a criação de gangues de adolescentes estão se acentuando porque não estamos oferecendo aos jovens a possibilidade de contatos ricos com pessoas adultas que possam servir como modelos e parceiros de diálogo, dentro de escolas que deveriam abrir muito mais espaço para a expressão criativa e para a formação de laços de amizade saudáveis.
A posição de Deborah Meiers é clara: embasada em sua experiência, ela acredita que, ao contrário do que se possa pensar, os adolescentes não tendem “naturalmente” a se isolar em grupos fechados e agressivos. Ao falar sobre as virtudes das escolas pequenas em que todos se conhecem, ela afirma:
As evidências sugerem que a maioria dos jovens possui uma fome tão profunda pelas relações que essas escolas oferecem a eles — entre crianças e entre adultos e crianças — que eles escolhem a escola em vez das culturas alternativas na Net, na televisão e nas ruas. (...) Percebemos que a fome por conexões com os adultos é forte o suficiente para fazer uma diferença se dermos a ela uma chance
Portanto, fenômenos como gangues somente acontecem quando não conseguimos inserir os adolescentes em redes de relacionamento de que adultos participam. Apesar da questão da dissolução das relações entre gerações precisar de uma explicação sociológica, também é evidente que a impessoalidade de muitas escolas torna-se um agravante do problema e um enorme desperdício das chances de combate-lo. Mas combater como? Criando mais “familiaridade” entre as pessoas, com ou sem “tias”.
A solução, segundo Meiers, passa pela criação de escolas pequenas. Aliás, ao assumir a direção de uma enorme escola pública americana, seu primeiro passo foi dividi-la em várias escolas pequenas, pois o que as grandes escolas fazem é recordar à maioria de nós que não temos muita importância.
É claro que ela está falando de enormes escolas públicas em regiões carentes e que existem escolas grandes que parecem capazes de conciliar o tamanho com a criação de ambientes em que crianças e adolescentes se sentem “em casa”. Mas seu alerta é válido para todos nós em qualquer tipo de escola: a pior coisa que pode acontecer a uma escola é ser um lugar em que há isolamento quase total entre crianças e adolescentes de um lado e adultos de outro. Nessas escolas, a falta de relacionamento empobrece todo o ambiente e acaba afetando até a aprendizagem.
É em função desse argumento que continuo repetindo: Puxa vida, bons tempos aqueles em que tínhamos familiaridade com as professoras, bons e velhos tempos que não voltam mais em que as chamávamos de tias! Justamente porque os bons tempos se foram e a intimidade entre professoras e comunidade não é mais a mesma é que devemos qualificar professores(as) preocupados(as) em e competentes para “criar familiaridade”...
Para concluir eu ousaria afirmar que, mesmo sendo assumidamente socioconstrutivista, acho cada vez mais que em escolas onde crianças e adolescentes se sentem “em casa”, os resultados educativos serão bons, independentemente dos métodos pedagógicos. E nesses casos tanto faz se as crianças chamam ou não as professoras de “tia”. Eu até que prefiro quando não chamam, se bem que, até hoje, eu chamo a maior e mais completa educadora que conheci de “tia” Vera...
Luca Rischbieter